Como havia prometido no post anterior, irei hoje contarvos pelo menos uma pequena parte da minha estadia naquilo a que hoje em dia chamamos ala psiquiátrica, mas ao lugar pelo qual eu chamo depósito de gentes.
Havia prometido ao Cedric que me iria curar, estava disposta a tudo, e na verdade se o primeiro passo para o tratamento da depressão é admiti-la, eu admiti!
Depois de saltitar de urgências em urgências de dois hospitais que não profiro o nome pela sensibilidade da questão e porque ninguém em Portugal ousa contar as verdades sobre o sector da saúde, lá fui enviada para a urgência do hospital "S".
Voltei ás urgências do hospital, a mesma psiquiatra, o mesmo atendimento e o ritual de praxe, convidou a minha mãe a sair do consultório, e ela prontamente saiu. Assim que fiquei a sós com a Doutora ela perguntou: -Estás com algum problema? - Ao que eu respondi prontamente que não, que o problema era mesmo eu, a minha cabeça, os meus pensamentos que eu mandava embora e eles voltavam. Próxima pergunta: -Tens alguma coisa mais a contar-me que não queres que a tua mãe saiba? -Ao que novamente respondi negativamente. Ultima pergunta e a que realmente ela me queria perguntar: -Estás Grávida? (drusssst) - acho que fiquei tão especada com a pergunta, que lhe disse só um não tão redondo como o formato dos meus lábios após esta pergunta. Não quis acreditar que ela tinha mandado a minha mãe embora porque me queria perguntar se estava grávida, claro que provavelmente se eu estivesse grávida não me iria internar naquilo a que ela chamava pedopsiquiatria.
A minha mãe entrou novamente e ela sem mais perguntas e sem dó nem piedade disse à minha mãe ignorando que tinha acabado de falar comigo e que eu era gente também: -bom, vamos interná-la, não é um sitio bom para se estar, mas acredito que no caso dela será a melhor opção.
No meu ver, nesse sitio eu iria curar-me e fui nessa perspectiva.
Entrei e eram grades por todo lado. Questionei-me vezes sem conta: -Porquê grades numa pedopsiquiatria?
Fiz o ultimo telefonema ao Cedric e entrei naquele mundo que desconhecia. Despedi-me da minha mãe e foi-me informado que como ainda não tinha os 18 anos excepcionalmente me iriam deixar ver os meus pais todos os dias. Eu questionei: Excepcionalmente porquê? Ao que me foi respondido friamente -Porque és a única menor de idade aqui. (woooooow?!) A única.... A única... A única... Como a única?
Pois bem, foram-me mostrar o quarto, um quarto com duas camas e tive muita sorte pois era o raro quarto que tinha a casa de banho privativa. Ao contrario do que esperava a minha colega de quarto (ou cela) tinha mais de 50 anos, tinha uma depressão cronica. Queixava-se de tudo e de nada, rogava a vida, era tudo o que eu não precisava.
Refugiei-me num pedaço de papel onde escrevi... escrevi... e depois jantei.
No final do jantar voltei ao quarto, voltei a dedicar-me à escrita e a chorar. Aquele depósito estava cheio de gentes apodrecidas pelo tempo que ali se encontravam. E eu tomei consciência disso quando me entraram no quarto (a minha colega de cela) e me perguntou: -à quanto tempo andas nesta vida? (aquilo suou-me como uma prostituta pergunta a uma notava) e eu respondi-lhe que era a primeira vez e esperava que fosse a ultima. Ela troçou de mim: -Olha, uma vez cá dentro nunca mais se volta ao mundo lá de fora.
Não perguntei nada, não disse nada, apenas voltei ao meu caderno onde escrevia cartas apaixonadas e loucas ao Cedric.
Chamaram-me para a ceia, bolachas e chá e um rol de medicamentos que eu nunca achei ter de tomar. Tomei tudo e voltei ao quarto, ia dormir quando a Susana (nome fictício) se chegou ao pé de mim e me disse: -Também sou nova aqui, só cá estou à dois meses. Mas já tive em "sitio X" durante 6 meses, fiz uma cura de sono, tive duas semanas em "sitio Y" e o meu marido vem me ver uma vez por semana, quantas vezes te deixam ver a tua família? -Todos os dias acho eu- Respondi. Mais uma vez a Susana achou que eu era uma ignorante e disse-me: Isso dizem eles a todas, a tua família vai se esquecer de ti. Habitua-te a isto não é tão mau como parece.
Não consegui pensar em mais nada caí num sono tão profundo que só fui acordada no dia seguinte pela enfermeira que estava ao serviço: -Tomem banho que daqui a bocado servimos o pequeno almoço.
Estava uma enfermeira simpática a distribuir esponjas pré ensaboadas, e perguntou-me de onde era, depois perguntou-me o que me tinha acontecido para estar ali e eu mais naturalmente que beber um copo de água respondi-lhe: Tomei comprimidos, mas fui internada porque quis. Ao que ela não me respondeu mais, acho que não acreditou. Eles estavam a dar lençóis da cama para colocar no chão das casas de banho, mas eu achei que uma toalha chegava. O que eu não sabia é que o escoamento da casa de banho era quase nenhum.
Então abri a totalidade da água quente como sempre fazia em casa, no entanto a água queimava tanto que foi difícil fechá-la e abrir a fria. Nesse incidente a casa de banho alagou. Eu tomei banho e ouvi um funcionário gritar comigo. Não era enfermeiro, penso que era das limpezas ou um auxiliar qualquer.
Entrou pela casa de banho a dentro e eu completamente nua, olhou-me de cima a baixo e eu tapei-me como pude e ficou alí a olhar para mim e a ralhar por a água já ter chegado ao quarto. Na altura só pensava: Ele está mais doente que eu, eu estou toda despida, não fiz assim tanto mal para ser tratada assim.
Saí da casa de banho cheia de medo, tremia e o funcionário continuava mesmo no refeitório a dirigir-se a mim com o desprezo com que me havia tratado dentro da casa de banho. Curiosamente depois do pequeno almoço e de me ter deitado na cama e dormido uma sesta isso já não fazia sentido, não me importei mais com aquele homem. (Continua com "Cobaia de serviço para estudos da universidade"
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