quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A visita

Depois daquela sessão voltei para o meu quarto, voltei a minha pequena sela e imediatamente fui inquirida pela minha colega: -Onde é que foste? -Ao que eu respondi não saber ao certo e não falei mais o resto da manhã. Escrevi no meu caderno, a Susana foi andar para o corredor, perguntou-me se queria ir com ela mas como não obteve resposta foi sozinha. Mais uma das infinitas cartas de amor para o Cedric.
Comecei a ouvir os talheres no corredor, hora do almoço, o meu primeiro almoço.
A comida não era de todo terrível, mas era insonsa, sem sabor. Faltava-lhe ali o toque mágico da cozinheira minha mãe. Almocei, comi pouco, sempre fui esquisita na cozinha e lá estava o tal funcionário que com todas as letras me faltou ao respeito e como numa psiquiatria nós somos os loucos e eles os deuses tive de me calar. Não me falava, limitava-se a passar por mim com aquele ar de superior.
Depois de almoço e de mais uma dose de medicação senti-me zonza, fui-me deitar, daí a umas horas apareceria a minha mãe.
Deixei-me dormir e fui acordada velozmente por uma enfermeira: -Levanta-te, a tua mãe está ali.
Eu levantei-me e sentia-me cada vez mais zonza, mais drogada.
Dei um beijo à minha mãe e um ao meu pai, e disse para a minha mãe em quase que em surdina: -Assina o termo de responsabilidade, quero-me ir embora daqui.- Ao que ela me respondeu imediatamente que não o fazia. Eu utilizei todas as minhas armas para argumentar. até que comecei a chorar e repeti inúmeras vezes: -Não vez que estou toda drogada? Eu estou toda drogada, drogaram-me, estou drogada... estou drogada... tou drogada...- E repeti isso uma centena de vezes até que a minha mãe já a chorar me disse: -Pára, não te posso levar, e se continuas a torturar-me assim não venho ver-te mais. (wooooooooow, será que a minha colega de cela tinha razão?)- Após a minha mãe dizer isto eu acalmei, tentei guardar a dor só para mim.
Fingi estar plenamente bem o resto da hora da visita, a minha mãe levou o portátil do Cedric para me entreter. Levou o meu telemóvel para eu lhe telefonar. Eu telefonei-lhe e pedi-lhe inúmeras vezes que esperasse por mim, ele prometeu que o faria.
Entretanto a minha mãe foi informada que a visita havia terminado e que ela tinha de sair, despediu-se e sei que no caminho para casa chorou o tempo todo.
Nessa tarde após o lanche fui de novo para o quarto a visão aterradora de ter grades nas janelas deixava-me apavorada. Pensei inclusive em fugir dali.
Nesse dia a minha mãe deu-me um rebuçado que eu guardei com carinho como se fosse o meu pequeno tesouro. Pois quando nos vemos privados de tudo o que temos as pequenas coisas são tesouros.
Fiquei alí sem fazer nada até à hora de jantar. Depois jantei e fui para o quarto onde comi o meu precioso rebuçado. Desta vez não trinquei como fazia em casa, saboreei-o, eis que me entra um enfermeiro pelo quarto a dentro, foi me fechar os estores pois eram fechados com uma ferramenta especial que só eles tinham. Olhou para mim e gritou apavorado: -O que estás a comer?-  Ao que eu respondi prontamente -Um rebuçado -Ele mantendo o mesmo tom disse-me para lhe mostrar e eu mostrei pondo a língua de fora. Imediatamente ele mudou o tom mas disse-me: -Não podes ter essas coisas cá dentro- Eu só pensava "é só um rebuçado" (Para quem está de fora e deve estar a pensar que é incrível, eu não condeno a atitude daquele enfermeiro, eles lidam com todo o tipo de gente. Lidam com todo o tipo de psicoses, ele teve medo que fosse algo que atentasse contra a minha vida).
Depois da ceia fui deitar-me e adormeci, mas acordei tempos depois a precisar de urinar, quando saí da casa de banho ouviam-se vozes no corredor, fui à procura de alguém na esperança de ter companhia e entre a forma horrenda como eles falavam de nós doentes ouvi um enfermeiro dizer: -Temos de dar mais sedativo ao doente da cama X do quarto Y que ele andava pelos corredores a noite passada. (credo... dar mais sedativo? Sem autorização de um médico?) -Fiquei apavorada com o que ouvi, para mim chegava de palhaçadas, iria saír dalí quer estivesse boa, quer não.
Voltei para a cama e voltei a dormir.
Na manhã seguinte era uma nova etapa. Mas essa é uma história que vos vou contar amanhã em: "A decisão de sobrevivência"







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