Dentro daquele hospital eu passei a ter a completa noção de tudo o que estava em meu redor. Comecei a ver como enfermeiros tratavam doentes, aliás, como eles por vezes estavam mais doentes que os próprios doentes. Eu estava sã!
Doeu-me o coração e a alma perceber que os doentes eram tratados a baixo de nada. Sem dignidade, sem esperança. Nesse dia um doente pediu um papel, um simples papel para escrever. Tal como eu havia pedido no primeiro dia que entrei lá. A mim deram-me várias folhas e caneta, aquele doente disseram-lhe que não tinham folhas, que escrevesse num talão, e estenderam-lhe um pedaço de papel usado e enrolado.
Nesse dia, fui chamada ao gabinete médico da psiquiatra que acompanhava o meu caso. Entrei, sentei-me e ela começou a lengalenga:
-Como tens estado? -Ao que eu respondi que estava bem e que me queria ir embora. Ela advertiu-me: -Sim, segunda-feira se tudo correr bem vais de licença, não posso dar-te alta hoje, a colega que te internou está de folga.
Eu já sabia de tudo aquilo. Em fim, a conversa continuou com meia dúzia de lengalengas, sem nunca me perguntar nada que ela não soubesse já. E eu dizia-lhe o que ela queria ouvir, quando ela me perguntou porque é que eu comia pouco eu respondi-lhe: -Não é nada directamente a ver com a fome, eu não gosto muito desta comida, sempre fui esquisita com as comidas.
Ela sossegou, mal sonhava ela que eu não comia porque cada vez que colocava o garfo na boca o meu estômago rejeitava a comida, quando caía no meu estômago quase sempre vazio sentia uma sensação de mal estar que me agoniava.
finalizada a sessão da psiquiatra fui almoçar, estava como se costuma dizer: com o estômago cheio de borboletas, teria a visita da minha grande amiga que eu condenei por contar aos meus pais do meu devaneio.
Deitei-me e dormi até à hora da visita, era a única doente daquela ala que recebia visitas diárias, foram-me chamar ao quarto: -Tens visitas.
Eu corri para a porta, a minha mãe entrou com o meu pai e informou-me: -Tens duas visitas lá fora.
Eu pensei que seria a minha grande amiga e o Cedric, mas estava tão enganada que quase senti raiva quando me apercebi que era a Dona Ana que me tinha ido visitar.
Abracei a minha amiga, não me lembro bem do que falamos, há muitas coisas que o meu cérebro tem dificuldade em lembrar, quando estava quase na hora do fim da visita a Dona Ana deu-me um abraço apertado e disse-me: Força, eu acredito que consegues.
A Dona Ana era uma senhora que tinha uma clínica onde se faziam terapias de Reiki, na qual eu participava pois sou terapeuta desta modalidade. Foi a voz dela que me seguiu, aquelas cinco palavras de força foram mesmo a minha força.
No final da visita fechei-me na casa de banho a chorar, era o único sitio onde ainda poderia ter alguma privacidade, embora também naquele sitio já tivesse tido a minha privacidade roubada.
Olhei-me ao espelho e despi-me, reparei como havia emagrecido, sentia falta das minhas roupas do dia a dia, aquele fato de treino estava a dar cabo do resto da minha auto-estima, mas ouvia a vós da Dona Ana: -Força, eu acredito que consegues, força, força, força....
Chorei em frente àquele espelho, chorei enquanto me apeteceu, mas tinha limite de tempo, sabia que se não saísse da casa de banho viriam à minha procura.
Parei de chorar, voltei a vestir-me e lavei a cara com bastante água, respirei fundo e pensei: EU VOU SAIR DAQUI. FALTA POUCO.
No dia seguinte o Cedric tinha prometido vir visitar-me, e eu esperava-o, mas isso eu conto outro dia...
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